Quando o extremo se torna a mediana
In medio stat virtus. A virtude está no meio.
Outro dia, em um aniversário, sentei ao lado do pai de uma amiga. Um empreendedor com uma trajetória de muito sucesso.
Eu normalmente sou o cara que fala. Mas, em alguns momentos, prefiro escutar.
Entre uma taça de vinho e outra, ele soltou uma frase que ficou comigo:
"Todo mundo quer ser melhor em tudo, mas eu sempre busquei a média. E hoje tenho tudo isso."
Ele se referia à união da família ao redor daquela mesa. E completou: In medio stat virtus. A virtude está no meio.
A frase remete a uma ideia de Aristóteles: a virtude não está necessariamente nos extremos, mas na medida adequada entre o excesso e a falta.
E acho importante fazer uma distinção. Buscar esse meio não é aceitar a mediocridade. É saber onde usar força.
Talvez essa tenha sido a parte da conversa que mais ficou comigo.
Força também é um recurso finito
Sempre fui muito ligado a fazer, crescer, construir, tocar projetos. Gosto de velocidade, de desafio e de gente inquieta.
Mas não dá para viver no máximo em tudo. Eu demorei para entender isso.
Na academia, por exemplo, tenho dificuldade de manter aqueles treinos longos e perfeitos. Já tentei algumas vezes. Não funciona para mim. Então prefiro ir mais vezes e fazer menos. Talvez nunca tenha uma performance extraordinária na academia. Tudo bem. Meu objetivo ali é outro: consistência.
No tênis é diferente. Treino há anos e ainda não sou tão bom quanto gostaria. Mas quero ser. Então treino mais. Tento melhorar técnica, movimento, tomada de decisão. Ali quero colocar mais energia porque quero ficar um pouco acima da média.
A diferença entre as duas coisas parece pequena, mas para mim diz muito sobre autoconhecimento.
Não quero ser excelente em tudo. Quero saber onde vale a pena tentar ser excelente.
Talvez essa seja a verdadeira discussão sobre a mediana. Não é nivelar a vida por baixo. É não gastar força máxima onde ela não é necessária.
Porque força é um recurso. Tempo é um recurso. Atenção é um recurso. Energia é um recurso. E se você tenta colocar 100% em tudo, alguma coisa vai pagar a conta.
Quando o extremo vira a mediana
No trabalho demorei mais para perceber isso.
Em alguns momentos da minha carreira acelerei demais. Queria aproveitar oportunidades, tocar projetos, assumir responsabilidades, fazer acontecer.
E existe um ponto perigoso nesse ritmo: o extremo começa a parecer a mediana.
Trabalhar até tarde parece normal. Responder a qualquer hora parece normal. Não conseguir desligar parece normal. Estar com a família enquanto a cabeça continua no trabalho parece normal.
Você começa a achar que viver assim é simplesmente o preço para crescer.
Eu já achei. E, em alguns momentos, deixei minha família de lado. Nem sempre porque estava fisicamente longe. Às vezes estava em casa, mas não estava realmente ali.
É justamente esse tipo de coisa que hoje me faz olhar diferente para a ideia de estar sempre acima da média.
Acima da média em quê? E a que custo?
O trabalho do líder não é escolher um lado
Não acho que a resposta seja desacelerar tudo. Muito menos perder ambição.
Tem momentos em que é preciso colocar o pé no acelerador. Tem projeto que merece 100%. Tem oportunidade que precisa ser agarrada. Tem momentos em que você precisa fazer mais que todo mundo.
A questão é saber quando.
Porque, se você usa força máxima o tempo inteiro, deixa de existir força máxima. Ela vira seu novo normal. Seu extremo vira sua mediana.
E isso também aparece muito na liderança.
Um líder precisa cobrar — mas cobrança demais sufoca. Precisa acelerar — mas velocidade demais gera erro. Precisa decidir — mas decidir tudo sozinho afasta o time. Precisa escutar — mas escutar todo mundo e nunca decidir paralisa. Precisa ter confiança — mas confiança em excesso vira arrogância.
O trabalho do líder não é escolher um lado e permanecer nele. É entender o que cada momento exige. Às vezes é 100%. Às vezes é 60%. Às vezes é hora de pressionar. Às vezes é hora de proteger.
E saber fazer essa leitura talvez seja mais importante do que viver tentando demonstrar excelência o tempo inteiro.
Maturidade não é perder intensidade
Hoje continuo querendo fazer coisas grandes. Continuo treinando tênis porque quero melhorar. Continuo tentando ir à academia mesmo sabendo que ali minha ambição é outra. E continuo trabalhando muito.
O que tento fazer diferente é escolher melhor onde coloco força.
Talvez maturidade seja justamente isso. Não perder intensidade. Aprender a direcioná-la.
Porque não existe nada de medíocre em escolher a mediana em algumas partes da vida para conseguir chegar ao extremo naquelas que realmente importam. Talvez seja justamente o contrário.
In medio stat virtus.
Não precisamos ser acima da média em tudo. Precisamos saber onde realmente vale a pena ser.
E, antes de acelerar de novo, talvez valha uma pergunta: correndo pra onde?






