INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

IA em todo canto. Transformação em canto nenhum.

Um recado desconfortável para quem lidera TI e ainda confunde adoção com valor.

06 JUL 2026·5 MIN DE LEITURA

Se a gente for honesto nesta mesa — e é para isso que a gente se encontra aqui — precisa começar pelo número que quase ninguém quer colocar no slide de board: oito em cada dez empresas que investiram pesado em IA nos últimos dois anos não conseguem apontar impacto no bottom line.

Não é falta de tecnologia. Não é falta de investimento. Não é falta de piloto. Falta outra coisa. E é sobre essa outra coisa que eu queria conversar.

O paradoxo que todo mundo vive e ninguém posta

A cena é sempre a mesma. Copilot licenciado, agente respondendo ticket, resumo automático de reunião, três pilotos rodando em áreas diferentes. Tudo funcionando. Ninguém consegue explicar para o CFO onde apareceu o resultado.

O motivo é constrangedor pela obviedade: a maioria de nós está usando IA para acelerar o trabalho que já existia, não para redesenhar o trabalho. É a diferença entre trocar a lâmpada e reformar a casa. Ambos dão trabalho. Só um muda o valor do imóvel.

O que a McKinsey chamou de "dabbling" — e o que a gente chama de dia normal

Existe uma expressão nova circulando por aí que me pegou: "human above the loop". Não é mais o humano no loop, revisando output de IA um a um. É o humano acima do loop, supervisionando times inteiros de agentes que executam processos completos, ponta a ponta.

Parece semântica. Não é. Muda o desenho da organização, o perfil de liderança, a régua de risco, a competência que a gente vai contratar em 2027. E, principalmente, muda a agenda do CIO — que hoje ainda está aprovando ticket, revisando slide e corrigindo texto de e-mail.

Se a minha semana não mudou, a da minha empresa também não vai mudar. Ponto.

75% — esse é o número que devia estar no board

Setenta e cinco por cento dos papéis dentro das organizações precisam ser redesenhados — não requalificados — nos próximos anos. Redesenhar significa reescrever a descrição de cargo, reorganizar o time em torno de workflow e não de função, e aceitar que camada de gestão que existe hoje pode simplesmente sumir.

Enquanto a gente discute governança de prompt e política de uso responsável, o board vai chegar perguntando por que o headcount de operações não caiu. E a resposta "estamos em fase de aprendizado" tem prazo de validade curto.

A pergunta de um bilhão de dólares que quase ninguém está fazendo

Se a IA absorve o trabalho de entrada — o analista júnior que aprende fazendo relatório, o desenvolvedor pleno que vira arquiteto errando código — de onde virão os sêniores de 2035?

Esse é o assunto mais difícil da nossa mesa. A resposta imediata é econômica: automatizar. A resposta correta é estratégica: alguém vai ter que financiar a curva de aprendizado que a IA está eliminando. Esse "alguém" não é RH. Não é o CFO. Somos nós.

Quem tiver essa conversa com o CEO primeiro, sai na frente do próximo ciclo de sucessão da empresa toda.

Três apostas honestas

Se eu tivesse que reduzir a três frentes para os próximos 12 meses, seria:

Um só workflow lighthouse — Ponta a ponta, com meta de P&L, não de "case para Town Hall". Se der certo, vira template. Se der errado, aprendeu barato.

Redesenhar a própria semana antes de redesenhar a dos outros — Que decisões eu ainda tomo que um agente bem instruído tomaria melhor? Que reunião existe porque eu não confio no dado? A resposta honesta assusta — e é aí que começa o trabalho.

Assumir que change management deixou de ser projeto e virou estado permanente — Não tem mais "fase de estabilização". A instabilidade agora é o modelo operacional.

O que a gente combina aqui

Ninguém vai postar no LinkedIn "meu piloto de IA não gerou valor" com foto sorrindo e três hashtags. Mas todo mundo nesta comunidade ou já viveu isso, ou está prestes a viver.

O diferencial competitivo dos próximos 24 meses não vai ser o modelo que você contratou, nem o parceiro que fez o rollout. Vai ser a coragem de redesenhar o que ainda funciona — antes que o mercado redesenhe por você.

E redesenhar sozinho, como todo mundo nesta mesa já descobriu do jeito difícil, custa milhões.

Traga seu workflow lighthouse — ou sua cicatriz — para a próxima rodada. É dessa troca, e não do próximo whitepaper, que sai a decisão que vai salvar o seu próximo trimestre.

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