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NEGÓCIOS

Agentic Commerce: quando o seu melhor cliente nunca mais acessar o seu site

O seu melhor cliente pode nunca mais entrar no seu site. Um agente fará isso por ele, e a questão é se a sua marca vai estar no cardápio dele.

12 JUN 2026·7 MIN DE LEITURA

O Agentic Commerce é o nome dado a essa nova lógica de comércio em que agentes de inteligência artificial não apenas recomendam, mas agem: pesquisam, comparam, negociam e executam a compra em nome do consumidor. Não estamos falando de ficção científica nem de um horizonte distante: já acontece com quem usa assistentes para decidir o que comprar, qual serviço contratar ou qual empresa merece confiança. A diferença é que esse comportamento ainda parece pontual mas, em breve, será o padrão.

O que muda, na prática, é a natureza da relação entre marca e consumidor. No e-commerce tradicional, o cliente é o operador do sistema: ele clica, navega, compara e decide. A disputa nesse modelo é por atenção visual, por banner e por posicionamento no Google.

No comércio orquestrado por agentes, o cliente vira orquestrador de intenções: ele define o que quer e passa a gestão da compra adiante. Quem pesquisa, compara, negocia e executa é o agente. Essa transição muda a lógica inteira do varejo, e a maioria das empresas ainda está otimizando para um modelo que está deixando de existir.

Moderei um painel sobre esse tema, no dia 7 de maio, no Gramado Summit, com três pessoas que pensam sobre isso de lugares muito diferentes: Augusto Lins, fundador da Stone e hoje Senior Advisor com olhar de investidor; Alexandre Caramaschi, CEO da Brasil GEO e especialista em posicionamento de marcas em LLMs; e o professor Anderson Soares, co-fundador do CEIA, o maior centro de excelência em inteligência artificial da América Latina. Quarenta e cinco minutos depois, eu saí de lá com a certeza de que o varejo está diante de uma virada que ainda não entendeu direito.

A pergunta central do painel era simples, mas desconcertante: o que muda quando um agente de IA passa a agir em nome do consumidor? Não apenas responder, mas decidir, negociar e executar a compra. A resposta que construímos ali foi que quase tudo muda, e que a janela para se posicionar está se fechando mais rápido do que parece.

Augusto descreveu a lógica histórica com precisão. Primeiro vieram as lojas físicas e a televisão: a marca ia até o consumidor. Depois chegou a internet, e o Google inverteu o jogo: o consumidor foi até o produto. Agora estamos entrando numa terceira onda, em que o consumidor delega a compra a um agente pessoal, um agente que conhece seu histórico, suas preferências, sua agenda e seu limite de gastos. Esse agente não navega por sites bonitos e nem é atraído por banners ou frases inspiradoras, ele conversa com outros agentes: compra, paga, agenda a entrega, sem um único clique humano. E daí, o KPI do varejo para de ser "quantos cliques?" e passa a ser "quantas intenções foram resolvidas por agentes?". São métricas radicalmente diferentes.

Alexandre trouxe dados que ainda não estão no radar da maioria: as marcas estão perdendo o controle da sua própria narrativa dentro dos LLMs. Quando um agente pesquisa qual produto comprar ou qual empresa contratar, ele não lê somente o site da empresa, ele lê o que foi indexado, debatido e referenciado em toda a internet. Alexandre apresentou um estudo em que empresas menores, que investiram em presença estruturada nos ecossistemas de IA, aparecem ranqueadas à frente de marcas muito maiores que ainda apostam em AdWords e SEO tradicional. E o Gartner prevê queda de 50% no tráfego orgânico até 2027.

Quem não se mover agora vai pagar caro para entrar depois, num ecossistema já dominado por quem se antecipou.

Anderson colocou o dedo na ferida científica, com a autoridade de quem criou a primeira graduação de IA do Brasil e co-fundou um centro cujas tecnologias impactam cerca de 70% da população brasileira: ainda há componentes que precisam ser construídos, pois protocolos de comunicação entre agentes, como MCP e A2A, são novos e imaturos. Como avaliar se um agente está sendo assertivo na interação com o consumidor ainda é um problema em aberto, sem solução de prateleira, mas isso não invalida o movimento. Pelo contrário, significa que quem entra agora tem vantagem competitiva real, e que quem esperar tudo estar resolvido vai encontrar o mercado ocupado.

A síntese que ficou daquele palco é simples de enunciar e difícil de ignorar: o varejo não está ficando mais digital, está ficando autônomo. A pergunta que todo CEO, CMO e CTO deveria estar respondendo hoje não é mais "como gero tráfego e cliques?", mas "minha arquitetura está pronta para ser lida, escolhida e executada por um agente?"

A janela está aberta. Por quanto tempo, ninguém sabe ao certo. Mas quem entrar agora vai ocupar o espaço que, daqui a pouco, vai custar caro para conquistar. E quem esperar vai descobrir que o cardápio já tem dono.

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