O consumidor que aprendeu a calcular
O McKinsey State of the Consumer 2026 não é sobre comportamento. É sobre uma mudança estrutural na forma como valor é percebido, decidido e disputado.
Digitalização de hábitos de consumo não é novidade. O que muda agora é a camada de mediação: o consumidor não apenas compra de forma digital, ele decide de forma digital — e isso altera profundamente onde a influência acontece, o que é valorizado e como as empresas precisam competir.
O relatório *State of the Consumer 2026*, da McKinsey, ajuda a estruturar essa transição em quatro movimentos que merecem atenção de quem opera e lidera tecnologia no mercado de consumo.
A descoberta saiu dos canais próprios
60% dos consumidores da Geração Z utilizam AI search na jornada de compra. Entre boomers, esse número cai para 29%.
Essa diferença não é apenas geracional. É um sinal de como o ecossistema de influência está se redistribuindo. O site da marca, a campanha, o conteúdo proprietário — continuam existindo, mas perderam protagonismo no momento em que a decisão é formada.
A descoberta agora passa por buscadores com IA, marketplaces, publishers, creators, reviews e fontes de referência que a marca não controla. A marca continua falando. Mas o consumidor decide dentro de um ecossistema muito mais distribuído — e muito mais difícil de mapear com as ferramentas tradicionais.
Para equipes de marketing e digital, isso exige uma mudança de mentalidade: de gestão de canais próprios para influência em ecossistemas.
Saúde ficou mensurável — e isso muda o jogo em consumer health
75% da Geração Z usa tecnologias de saúde, como smartwatches e fitness trackers. Entre boomers, 32%.
Mais do que adoção tecnológica, isso representa uma mudança na relação do consumidor com sua própria saúde. Ela deixa de ser uma intenção genérica — "quero ser mais saudável" — e passa a ser acompanhada, medida e comparada: sono, energia, performance, dor, recuperação.
Para o mercado de consumer health, isso é uma transformação relevante. O consumidor que monitora sua saúde passa a valorizar mais evidência do que promessa. Mais orientação confiável do que apelo emocional. E mais benefícios percebidos na prática do que claims de campanha.
Marcas que não conseguem traduzir seu benefício em termos mensuráveis e verificáveis vão encontrar um consumidor cada vez mais resistente — não por ceticismo, mas por excesso de informação e capacidade de comparação.
Valor está sendo julgado de forma mais sofisticada
Mesmo sob pressão de custo, consumidores continuam protegendo gastos ligados a experiências. Segundo o estudo, experiências de viagem cresceram 4,4% entre 2023 e 2025, contra 0,8% em bens não essenciais.
Isso não significa que preço perdeu importância. Significa que o critério de julgamento ficou mais complexo.
O consumidor está fazendo três perguntas antes de decidir: Isso melhora minha vida? Isso resolve algo real? Isso vale meu tempo, minha atenção e meu dinheiro?
São perguntas de ROI — não de impulso. E elas se aplicam tanto a uma passagem aérea quanto a um suplemento vitamínico ou a um analgésico.
O consumidor está calculando o ROI de cada compra
Quase um terço dos consumidores relata dificuldade para comprar o produto que deseja. A resposta, porém, não é cortar consumo — é consumir de forma mais estratégica: manter produtos por mais tempo, comprar usado, avaliar o retorno real de cada gasto.
As ferramentas digitais estão criando um consumidor seletivo e calculista. Ele compara mais, pesquisa mais, e avalia durabilidade, utilidade e custo-benefício com uma precisão que antes não era acessível.
Isso tem uma implicação direta para estratégias de portfólio e precificação: reduzir preço e reduzir tamanho pode estar começando a ser menos eficaz do que oferecer mais valor a um preço atrativo — e saber comunicar esse benefício com clareza.
O que isso significa para quem lidera digital
Digital passou de canal para capacidade competitiva.
Não se trata mais de ter presença nos canais certos ou de executar campanhas bem segmentadas. Trata-se de entender sinais distribuídos em ecossistemas que a empresa não controla, influenciar o momento em que a decisão está sendo formada — não depois — e transformar dados em decisões melhores em tempo real.
A disputa não é mais por atenção. É por relevância no momento exato em que o consumidor está calculando se vale a pena.








