Por que empresas ainda não conseguem enxergar impacto relevante da IA?
Segundo a McKinsey, as empresas estão tentando automatizar tarefas quando deveríamos estar redesenhando workflows inteiros.
80% das empresas ainda não conseguem enxergar impacto relevante da IA no resultado financeiro. É isto que aponta estudo recente da McKinsey, divulgado também em formato de podcast.
O material em momento nenhum questiona a importância nem tampouco o potencial da IA no futuro próximo, mas sim que as empresas ainda não estão conseguindo extrair valor desse produto e articula o motivo. Ainda são tímidas demais na implementação.
Segundo o estudo, as empresas estão tentando automatizar tarefas quando deveríamos estar redesenhando workflows inteiros.
Pense o seguinte, você se muda para uma nova casa, e nela coloca eletricidade apenas para lâmpadas. Quanto de eficiência você está perdendo?
Geladeira, máquina de lavar, televisão, elevadores... ou seja... Se a casa não for desenhada em função da eletricidade, o ganho é marginal.
O que o material infere é que estamos exatamente nesse ponto com IA. Colocamos "lâmpadas" nas empresas. Um agente escreve e-mails, outro resume reuniões, outro gera apresentações.
Redesenhar workflows, não automatizar tarefas
O que significaria então redesenhar a empresa em função de IA? A McKinsey propõe uma visão. Não automatizar tarefas. Redesenhar workflows completos.
Os exemplos do artigo deixam isso muito claro. Em vez de implementar agentes para otimizar etapas do underwriting de seguros, por exemplo, o workflow inteiro de underwriting deveria ser remodelado para agentic-driven. Agentes coletam documentos, verificam identidade, analisam risco, consultam regras regulatórias, montam a proposta e produzem a justificativa. O humano deixa de executar cada etapa e passa a julgar exceções.
Não é uma implantação de um sistema de tecnologia, é um redesenho organizacional, um novo departamento.
O gestor deixa de ser um gestor de pessoas. Passa a ser responsável por um workflow. O humano deixa de estar in the loop (executando tarefas) para estar above the loop (julgando resultados de um processo quase ou totalmente feito por agentes).
A avaliação de um bom gestor aos poucos deixa de ser: "Seu time está performando?" E passa a ser: "O processo pelo qual é responsável está performando?"
Curiosidade e capacidade de liderança matricial em ambientes complexos passam a ter um peso considerável para uma estrutura organizacional lean e extremamente horizontal.
Organizações mais horizontais, organizadas em pods
Isso muda até a estrutura das empresas. O artigo fala em organizações mais horizontais, com menos camadas hierárquicas, maior span of control e times organizados em pods, que se formam e se reorganizam em torno de problemas de negócio, e não necessariamente de departamentos fixos.
Em vez de Comercial, Marketing, Trade e Analytics... ...você pode ter um pod responsável por "Grow Produto A", outro por "Improve Store Execution" ou outro por "Reduce Stockouts", combinando especialistas humanos e agentes trabalhando sobre o mesmo workflow. Uma proposta de mudança bem profunda... A unidade organizacional deixa de ser o departamento. Passa a ser o domínio de negócio.
A McKinsey prevê esse tipo de organização chegando rápido, em menos de 5 anos.
Não será um big bang
Não acredito que essa transformação acontecerá em um big bang. Historicamente, grandes mudanças organizacionais nunca aconteceram assim.
Tem sido assim com ERPs. Primeiro surgiram projetos isolados. Depois, as empresas provaram que o modelo funcionava. Só então vieram grandes programas de transformação.
Minha hipótese é que veremos exatamente o mesmo movimento:
1. Primeiro, workflows isolados, provando business cases.
2. Depois, pequenas empresas inteiras nascendo já orientadas por agentes. Essas empresas provarão que o modelo funciona e serão adquiridas por empresas maiores. Nada de novo debaixo do sol, lembre-se do movimento fintech.
3. Em paralelo às aquisições, vejo as consultorias oferecendo programas de transformação de workflows. É natural esperar reshapes sendo contratados de uma das big 4 para entregar um departamento "agentificado".
4. Aí então veremos iniciativas parecidas com uma implantação de ERP. Não para implantar. Mas para transformar um domínio inteiro da empresa.
Esses grandes projetos de implantação não serão projetos de tecnologia para entregar agentes para os processos A, B e C, mas sim um programa de negócio onde a empresa primeiro avalia quais workflows possuem maior sinergia, formata um bloco de negócio e busca "agentificar" aquele bloco.
Por exemplo, "agentificar" toda a parte de Tomada de Decisão Comercial (Commercial Decision) nos trará uma redução de custo X, time-to-market Y, aumento de vendas Z.
Workflow interaction first
O que acontece, no entanto, quando esse bloco rodando em total eficiência, "agentificado", precisar interagir com um departamento que ainda não passou por esse processo e está ainda orientado a humanos?
Imagine que Commercial está "agentificado" mas Legal não está. Antônio, advogado sênior, discorda do valor gerado pelo bloco de Commercial Decision e manda um e-mail detalhando os fatores de discordância.
Quem decide? Quem julga?
O artigo argumenta que o valor está em otimizar workflows. Concordo. Mas vou além. Numa corporação, o ótimo global está na melhor interação possível dos diversos workflows e não apenas na criação de ótimos locais.
Cada domínio passando por um programa de um ou dois anos, seguido por um período de hypercare (período intensivo de estabilização) até que a organização confie naquele novo modelo operacional.
Para os líderes, o "dever de casa" é avaliar o quanto os processos de suas empresas estão desenhados para potencializar sinergia. Quão fragmentados estão?
Enquanto a McKinsey descreve muito bem Workflow first, a dica de alguém que já viveu transformações corporativas massivas e algumas eras de IA é se preparar para o estágio seguinte, Workflow interaction first.
Não será uma corrida de cem metros, mas sim uma prova de revezamento.








